Contra Mundum

Francisco
Mendes da Silva

Cidade Maravilhosa

Boris Johnson foi ontem reeleito Mayor de Londres, depois de uma interminável contagem que obrigou a que os resultados oficiais tivessem sido entregues “even later than one of Boris’s columns” (palavras de Paul Goodman, ex-deputado Tory e ex-colega de Boris do Telegraph). É um facto extraordinário, nesta época de opressão uniformizadora em que apenas parecem ter sucesso os políticos com a espessura intelectual da massa folhada. Um excêntrico como BoJo só podia mesmo ter sido eleito em Londres, a cidade onde o individualismo é mais considerado e a extravagância não é um insulto.

Em 2006, escrevi para a Atlântico o texto aqui em baixo. Não imaginava que Boris se fosse candidatar a Londres, muito menos que vencesse, muito menos ainda que vencesse por duas vezes. Lido à distância de seis anos, parece-me um perfil demasiado agarrado ao tempo em que foi escrito, mas há ali na parte final um tom levemente premonitório, involuntário, que me apetece a partir de agora cultivar, como aqueles nefelibatas bem-intencionados que o querem ver um dia em Downing Street.

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“O imaginário político colectivo reserva um pedestal especial para os mais destemidos heróis da subversão. Mas a luta pela liberdade de expressão, actualmente o tema du jour, nem sempre avançou apenas pelos esforços hercúleos de agentes subterrâneos e perseguidos pela situação. A Inglaterra, pátria da imprensa plural e de outras manifestações da Liberdade, tem para ensinar tanto quanto por que responder. Na era Tudor do Século XVI, a proliferação de informação pública foi amplamente dissuadida pelo pulso de ferro de monarcas como Henrique VIII ou Isabel I e na centúria seguinte coube a Carlos II, não propriamente um mestre da subtileza, abolir todos os jornais. Mesmo na velha Albion, a história do jornalismo fez-se da censura e da opressão.

No entanto, a limitação feroz do tráfico de ideias criou o espaço para que, do outro lado da tensão dialéctica, nascesse o prolífero mercado do humor que mais tarde seria exportação lucrativa das ilhas. No início do Século XVIII, Jonathan Swift publicava “A Modest Proposal”, ensaio onde defendia que se comessem as crianças irlandesas como paliativo para o excesso de população e para a falta de comida na Ilha Esmeralda. O cronista irlandês é hoje tido na sua importância fundadora, enquanto o primeiro modelo moderno dessa tradição universal da sátira jornalística política. Mas o seu exemplo é muito mais relevante do que isso. Além de cúmplice vincado do mainstream político que era seu objecto de trabalho diário (servira o diplomata Wiliam Temple e era director do “Examiner”, o braço publicado do antigo Partido Tory), Swift mantinha igualmente uma ligação próxima com a Igreja Anglicana. Porém, nunca essa posição foi constrangimento suficiente à sua liberdade de expressão.

Cerca de trezentos anos depois, a Inglaterra mostra-se agradecida pelo legado. É, por excelência, a terra da polémica, do mais desbragado debate público e na qual, mais do que em qualquer outro país do mundo, as opiniões são tomadas pelo seu valor facial, não pelos interesses, vaidades ou vinganças que possam querer ocultar. Em 16 de Outubro de 2004, a Spectator, secular revista-semanário-fétiche do conservadorismo e da escrita elegante, publicou um editorial sobre a onda de comoção instalada na sequência da morte do refém britânico Ken Bigley às mãos de terrorstas no Iraque, no qual, para além da condenção da depravidão e barbárie do acto, se teciam considerações sobre o espírito nacional de “vitimização vicária” e como essa reacção extrema (nunca tributada a nenhum dos soldados britânicos mortos ao serviço do país) se alimentava do facto de Bigley ser natural de Liverpool. A combinação de uma economia desafortunada com uma especial predilecção para o providencialismo estatal teria, segundo o texto, criado “uma peculiar e profundamente repulsiva mentalidade” nos liverpudlians, que se vêm, sempre que possível, como vítimas de tudo e de todos, insensíveis a qualquer possibilidade de culpa própria nos seus fracassos e cultivando “um sentimento tribal de ressentimento contra o resto da sociedade”. Por muito ofensivo que fosse já, o editorial não se ficava pela mera análise sobrevoada da psique colectiva da cidade, optando por comparações arriscadas (com a morte de Diana, Princesa de Gales), abrindo feridas antigas (a morte, em 1989, de cinquenta adeptos do Liverpool Football Club durante um jogo no estádio de Hillsborough e a recusa da cidade em aceitar a culpa dos fãs embriagados) e ponderando até sobre a prudência de Bigley (que fora expressamente desaconselhado pelo Foreign Office de ir tentar a sua sorte no Iraque).

Dificilmente um editorial terá sido mais inflamatório do que este. Mesmo não sendo o autor do mesmo (mais tarde o colega Simon Heffer revelou ter dado “uma mãozinha”), a responsabilidade pela sua defesa coube a Boris Johnson, jornalista profícuo e politicamente incorrecto, ex-aluno de Eton e do Balliol College de Oxford, estrela da televisão, deputado ciclo-mobilizado, dono da mais reconhecida franja loura rebelde da política britânica e, à altura, editor da Spectator e Ministro-Sombra do Partido Conservador para as Artes. Na sequência do linchamento público de Johnson, Michael Howard, então líder dos Tories, participou na comoção, dizendo do editorial que este era, de uma ponta à outra, “desprovido de sentido” e enviando o seu correlegionário numa peregrinação arrependida a Liverpool. Na sua subida a Merseyside, Johnson foi tudo menos apologético. Reforçou a tese contra o sentimentalismo irracional da Grã-Bretanha e, em directo num Fórum TSF lá do sítio, teve oportunidade de escutar um irmão de Ken Bigley brindá-lo com um “You’re a self-centered pompous twit! Get out of public life!”. Howard resistiu às pressões para o demitir, coisa que, no entanto, viria a fazer pouco depois, quando se descobriu que Johnson, homem casado e pai de quatro, teria mentido acerca de um relacionamento amoroso com Petronella Wyatt, a correspondente em Nova Iorque da Spectator.

A crise em redor do editorial sobre Bigley não é caso único no reportório polemista de Boris Johnson. Mas é, de longe, o mais exemplar. Johnson vive uma vida dúplice, de militante e deputado leal do Partido Conservador e, ao mesmo tempo, de jornalista empenhado na verdade. Nem todos são capazes deste contorcionismo ético e deontológico. É algo que exige um comprometimento incondicional com a liberdade individual e, se possível, a rara graciosodade de Swift e Boris. Em Portugal, terra de preconceitos e de regulações gerais, onde a opinião original é desmerecida e a política, a universidade e a intelectualidade vivem alegremente em mundos hermeticamente separados, mutuamente desdenhosas umas das outras, Boris Johnson seria ave rara a abater. Em Inglaterra, David Cameron, o novo líder Tory, repescou-o para seu Ministro-Sombra do Ensino Superior. Por razões de tempo - e só essas, como quis salientar no seu último editorial -, Boris deixou a direcção da Spectator em Dezembro último.  

Quando este texto for publicado, Boris Johnson poderá ter já sido eleito novo Reitor da Universidade de Edimburgo, cargo previamente ocupado por Gladstone, Churchill e Gordon Brown, numa candidatura que resultou da proposta de um número recorde de alunos. Em campanha recente, instado a pronunciar-se sobre a primeira “LGBT Awareness Week” da referida Universidade, Boris respondeu: “I am all in favour of raising awareness of these issues. No one ever went wrong by being aware, as Socrates probably said”. É assim, Boris Johnson. A responsabilidade só lhe faz bem”. 

  • 5 May 2012