January 2012
20 posts
Winning you was easy/ But darkness was the price.
Welcome back, Mr. Cohen.
Já que este blog começou com apropriações selvagens da distinção berliniana entre “raposas” (que sabem muitas coisas) e “ouriços” (que sabem uma coisa muito importante), fiquem então com outra.
Entre os actores, também há as raposas e os ouriços. As raposas são os versáteis, que trabalham até à perfeição e exaustão qualquer personagem (Merryl Streep, Sean Penn, os indefectíveis do sistema Stanislavski/método Strasberg). Os ouriços são os instintivos, que emprestam às personagens a sua própria psicologia e por vezes parece que desempenham sempre o mesmo papel (Humphrey Bogart, John Wayne, Clint Eastwood, George Clooney). Habitualmente, a crítica dedica os anais aos primeiros: o génio esforçado é mais valorizado do que o génio espontâneo; a transpiração é mais aplaudida do que a inspiração. Mas são os segundos - com o seu talento despreocupado, com a sua coolness congénita - que preenchem a dimensão iconográfica da história do cinema.
Ryan Gosling mostrou em Drive, com a sua prestação hipnótica do cowboy urbano solitário, que tem tudo para ser o grande ícone da sua geração. Muitos têm-no apontado como o novo Steve McQueen. No entanto, ainda não vi sublinhada a verdadeira coincidência: McQueen morreu no dia 7 de Novemnro de 1980 e Gosling nasceu 5 dias depois, no dia 12. Nunca conheci argumento melhor para a teoria da reencarnação.
(publicado há uns anos na Atlântico. A propósito do novo livro)
Numa quinta algures no Wiltshire, Inglaterra, vivia um porco chamado Singer. O baptismo – uma homenagem a Peter Singer, o famoso utilitarista australiano de Princeton, teórico do infanticídio e dos “direitos” dos animais – coube a Roger Scruton, dono da quinta e do porco, que um dia dele fez umas deliciosas salsichas.
Scruton é provavelmente o mais polémico e intolerado dos pensadores ingleses vivos. É certamente o mais desconsiderado pela academia estabelecida, o mais vituperado pela imprensa progressista, o mais desvirtuado pelos intelectualmente desonestos. É chamado de xenófobo, racista, fascista e todos os restantes epítetos do catálogo. A tudo isto reage sem mover a sobrancelha. Não mostra ultraje nem revolta, apenas uma incredulidade serena que lhe sublinha a excentricidade num mundo em que cada vez mais os intelectuais públicos são figuras esbaforidas e de dedo em riste. A chave do seu pensamento é o conservadorismo de Edmund Burke e a nostalgia da ordem aristocrática pré-moderna (ou, pelo menos, pré-II Guerra), das velhas liberdades medievais e da desconfiança do poder centralizado. Tudo isso se revela a cada linha. Nas diatribes contra a arte moderna, na defesa da caça à raposa, do Estado-Nação e da ruralidade. Ou no mais belo dos seus livros, England: An Elegy, um adeus sentido às regras, instituições e costumes de uma Inglaterra que já não existe.
Segundo o próprio Scruton, o momento definitivo do seu nascimento político foi, como muitos da sua geração, o Maio de 68, ao qual assistiu da janela do quarto que arrendara no Quartier Latin. Enquanto os amigos – tudo burgueses entediados, magnificamente estabelecidos e de famílias possidentes - viravam automóveis e levantavam barricadas, o jovem Roger descobria-se exactamente do lado oposto. A epifania confirma a suspeita de que o conservadorismo é uma reacção estética. Foi-o também na geração Reagan e na do Onze de Setembro. Contra os comportamentos grotescos e a retórica desmiolada do progressismo acrítico; contra as ideias, os mitos e as frases feitas do politicamente correcto.
Apesar da disposição engagée, foi breve e pouco frutífera a sua ligação à política partidária. Depois de lhe ter sido recusada a participação nas listas de candidatos do Partido Conservador às eleições de 1978 (por, alegadamente, ser “too bookish”), ainda fundou o Conservative Philosophy Group, mas foi-se progressivamente afastando, desiludido com o partido que se aburguesava no deslumbramento pela economia de mercado e pela ética yuppie. Já nos últimos dias do governo Labour que sucumbiria ao pés de Margaret Thatcher, escrevera The Meaning of Conservatism, a sua mais completa declaração de intenções, que, segundo o próprio, não teria tido o acolhimento esperado. Em Gentle Regrets, obra recente, retrospectiva e confessional, lembra a ocasião em que Harold Macmillan se dirigiu ao Conservative Philosophy Group e, no auge do discurso, repetiu: “É importante lembrar que… lembrar que… Esqueci-me do que ia dizer.” Scruton comenta o embaraço: “’Esqueci-me do que ia dizer’ é a verdadeira contribuição do Tory Party para a compreensão do governo nos nossos dias”.
Roger Scruton é considerado o exemplo acabado do reaccionário. O simplismo é confortável, mas Scruton não é um reaccionário comprometido com mudanças políticas forçadas e abruptas (o revolucionário do avesso), antes o paladino dos passados irrecuperáveis, o gentil porta-bandeira da Reacção pacífica e utópica ou, como lhe chamou o Guardian, “o santo padroeiro das causas perdidas”. Como o próprio escreveu, o conservadorismo que defende não é meramente uma crença política – ou, sequer, a disposição que Oakeshott estudou. É uma visão duradoura da sociedade humana, difícil de perceber, pior de explicar e terrível de praticar. Especialmente neste tempo de utilitarismos e materialismos, de religiosidade frágil e uma economia global que corrói as solidariedades pessoais e as lealdades locais. Mas Scruton não desespera e lá vai continuando, com uma cadência de publicação e um ecletismo impressionantes, a tarefa de transcrever para o mundo moderno, sem a pureza e a estridência dos slogans, a filosofia que Burke nos ensinou. Na quinta do Wiltshire, na da Virginia ou na mais conservadora das moradas, o apartamento londrino junto a Savile Row.
Os seus textos, de uma elegância terna e melancólica, e ainda que estranhos à cultura urbana omnipresente, são de leitura obrigatória. É impossível concordar com tudo. Mas só os espíritos menores apreciam apenas aquilo com que concordam.
Quando o seu projecto político e intelectual do Séc. XX esbarrou na realidade e ruiu (a partir de meados do século até ao funeral de 1989), a esquerda ficou sem a minuta revolucionária que durante décadas foi o seu franchising global. Dos escombros foram então saindo partidos com a mesma intenção de destruir o capitalismo mas, na ausência de um sistema de ideias coerente, apoiados num mistifório de causas esparsas alegadamente capazes de desempenhar a missão.
Uma dessas causas foi o ambientalismo. A esquerda agarrou-o com tanta solicitude e ardor que é hoje impossível um político de direita falar do tema sem ser acusado de eleitoralismo, de estar artificialmente a insinuar-se aos votos do outro lado, que não são seus.
Roger Scruton, no seu novo livro, ensaia o contra-ataque: para a esquerda, o ambientalismo é algo que lhe não está no sangue - é um aproveitamento (esse sim artificial), um mero pretexto para a crítica do capitalismo. Nada mais. Para a direita - ou melhor: para o conservadorismo-liberal clássico - é um tema charneira, que define o seu próprio sistema de valores, assente no respeito pela ordem espontânea e pela ideia de tutela (stewardship), que um conservador não conhece apenas da publicidade aos relógios Patek Philippe (“You never actually own a Patek Philippe. You merely look after it for the next generation”), mas também das páginas de Edmund Burke: a sociedade é um contrato “not only between those who are living, but between those who are living, those who are dead, and those who are to be born”.
(também no 31)
Downton Abbey Road.
December 2011
34 posts
É uma das tradições do Natal: chega a quadra, chegam as lamúrias por causa do “consumismo” - um exercício que une o clero da política anti-capitalista ao da Igreja, mas que não tem necessariamente de aborrecer nenhum dos dois. Os progressistas talvez pudessem ver alguma utilidade nessa coligação sazonal e oportunista com o mercantilismo, que porventura corrói a superstição (não sei). E a Igreja devia abandonar o seu receio da espontaneidade no mundo e aceitar de vez a ordem capitalista. Como cristão, nunca percebi a aversão. A procura do lucro pela troca comercial é a melhor invenção do Homem, porque é o resultado da orientação da natureza humana, contra as probabilidades, no sentido do bem comum. O objectivo do capitalista é preocupar-se com o seu próprio bem, coisa que só consegue porque outros capitalistas pensam da mesma forma. Apesar dos contratempos, este átomo da realidade foi sempre a razão do progresso da qualidade de vida. Que a Humanidade tenha descoberto uma forma de domar a sua natureza - imperfeita, falível, conflituosa, contingente - e determiná-la na boa direcção é a melhor manifestação da Graça de Deus.
At Christmas little children sing and merry bells jingle.
The cold winter air make our hands and faces tingle.
And happy families go to church and cheerily they mingle,
And the whole business is unbelievably dreadful if you’re single.
Wendy Cope